quinta-feira, 25 de novembro de 2010







Testamento



A aqueles que me amaram,

Deixo o orvalho no verão
A aqueles que por mim choraram,

As cartas no alçapão

Aos poucos que acreditaram
Naquilo que queriam ver
Deixo as utopias guardadas
E o sol do entardecer
Aos beberrões e aos sãos,

E aos desacreditados na vida
Deixo todas as memórias
E as canções de pianista
A aqueles que não me viram

Ou jamais virão a ver
Deixo-lhes os meus sorrisos
E o meu ‘muito prazer’
Aos velhinhos de todo o mundo,

Deixo as cores e a insensatez
E todos os meus antigos
Parceiros de xadrez

A aqueles que amei em silêncio

Que fiquem com a irritação
De procurar no escuro
O caminho para um coração
Aos jovens e derivados

Deixo a eles o prazer,
Deixo a carteira de cigarros

E os pecados que quis cometer

Aos que tem um ao outro
Dou apenas a solidão
Dentre todas as almas grudadas

Há de haver um espaço vão

Aos eternos coadjuvantes

Dou as palmas finais

Atuar em invisível
É o mais triste dos rituais

Aos que tiveram quase tudo

Dou-lhes ainda mais,

Viver pela metade

É morrer sem viver jamais
Aos que nunca existiram

Dou as lágrimas que não chorei
E aos que morrerão comigo
O pouco que ainda sei

E a ti, que tanto amei,

E que tanto me foi querido
Deixo apenas os tormentos
De mais um coração ferido.

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